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“Mesmo de dia todos os gatos parecem-me pardos.”

rouge

Nunca, mas nunca, se deve apontar para a cara de uma pessoa que cora com facilidade e dizer muito alto: “A-AH!! estás coraaaarr!!!!”.
Isto devia ser uma regra, como a de não acordar sonâmbulos.

então, há alguma solução melhor que sorrir e agradecer?

Tempos Modernos

 

Eduardo, o Bombeiro

Teria sido um dia absolutamente normal se por volta do meio-dia não começassem a chover meteoros e a terra não fosse invadida por aliens.
-Estes extraterrestres escolhem sempre a pior hora para atacar,- suspirou Eduardo, dentro do seu uniforme de bombeiro enquanto punha os óculos escuros, com a lentidão de um artista de cinema. – está um calor do caraças!
-Preferias estar a apagar fogos? – perguntou o seu colega.
-Depende do fogo. – respondeu, enquanto olhava de alto a baixo uma jovem de tranças no cabelo que passava naquele momento pelo carro dos bombeiros. Mais tarde virão a descobrir que são primos direitos, mas isso pouco importa agora para a história.
O importante é que Edu (ele chama-se Eduardo, mas vou começar a tratá-lo por Edu, para ser mais simples) estava a perder o seu pacato dia de Domingo habitualmente passado a organizar a colecção de esferográficas BIC, para livrar a cidade destes homenzinhos verdes com a cabeça grande que…

PIPIPI parou parou parou!… porque é que têm de ser sempre homenzinhos verdes com cabeças grandes?! Daqui para a frente os extraterrestres desta história são amarelos às bolinhas azuis e têm a cabeça do tamanho de uma meloa! Pronto, é só isso… desculpem a interrupção… vamos lá continuar isto…

  …o extraterrestres (que não são verdes, mas sim amarelos às bolinhas) estavam a causar o caos ao sentarem-se nas mesas de esplanada dos cafés sem consumir nada e a ir aos talhos pegar naquelas fichas de esperar a vez e depois fugir com elas sem serem atendidos:
-É uma malvadeza, uma crueldade! Uma pessoa depois fica a chamar pelo número 29, número 29… e ele não estão cá e tivemos de passar para o outro número a seguir!! Isto não se faz, não se faz!! – Contava-lhes o talhante, um homem robusto com o farto bigode e bata cheia de sangue, mas que agora, sentado no banquinho de cortar a carne, chorava como uma menina.
Edu afastou-se dos soluços do homem para olhar para fora e ver na rua mais dois aliens a porem garrafas de plástico no contentor do papel.
-Nunca sabem quando parar… -encostou-se à porta do talho a ver os dois diabretes a fugirem (o mais rápido que as suas pequenas pernas de extraterrestre permitiam) enquanto riam o seu risinho característico, que é agudo e soa àquelas vozes manipuladas no computador para ficarem mais fininhas.

ok, esta interrupção agora não tem qualquer propósito, eu é que estava a gostar de escrever em itálico.

Naquele momento, iluminado pelo sol cor de laranja de fim de tarde, com o seu bronzeado e cabelo escuro e esvoaçante, Edu passaria por um actor latino famoso, uma vedeta de nome sonante, das que desempenham o papel principal e depois de matarem os mauzões todos ficam com a rapariga jeitosa! Sim, Edu tinha ar de herói. Mas era só ar. Fora sempre um cobardola, evitava conflitos e quando arranjava problemas com alguém tinha o cuidado de certificar-se que seria alguém que podia vencer numa briga.
Não que os seus dias de ginásio e o treino para bombeiro não o tivessem deixado razoavelmente forte, mas não suportava a possibilidade de levar um pêro no nariz ou esmurrar um olho. Depois ia ter de andar com aquilo inchado durante montes de tempo! Não que alguém fosse reparar num olho negro visto que o Edu usa óculos escuros em todo o lado e em qualquer situação. Acredita que os óculos escuros e as suas frases vagas ajudam-no a parecer mais misterioso, e, vai daí, mais interessante.
-Olha ali mais dois! Vamos atrás deles! – Apontou apressado o outro bombeiro, que se juntou a Edu.
-É tarde de mais, Carlos, o mal já está feito. Acabei de os ver deitar embalagens de plástico no papelão.
-Malvados! Aquilo depois dá mais trabalho a separar! Mas se os apanharmos ainda os podemos impedir de fazer algo mais louco, como deitar chicletes mascadas para o chão!
-Não vês que não vai adiantar de nada? Eles são muitos, e vão continuar a reproduzir-se! Já não está nas nossas mãos…
Durante um momento ficaram os dois calados, absortos em reflexão. Carlos a pensar numa solução, Edu a pensar se tinha o cabelo bem penteado. Por fim, o primeiro concluiu tristemente:
-Estamos perdidos.
-ah, não há-de ser nada. Olha, já agora, conheces aquela gaja ali com tranças? É que a cara dela não me é estranha.

 

modern romance

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